Andar de ônibus em Santo André é calvário

segunda-feira, 21 de março de 2011

Atravessar Santo André de ônibus no fim da tarde significa até cinco horas perdidas no trânsito. O calvário de quem depende do transporte público fica mais latente na longa fila de carros que se forma nas principais avenidas. Por exemplo: passageiros das linhas que saem de São Caetano e viajam até Mauá sabem que não vão estar em casa antes das 22h.

A equipe do Diário acompanhou a rota que muitas pessoas fazem diariamente. Saiu do início da Avenida Goiás, em São Caetano, e foi até a Rua Catequese, em Santo André, percurso de cerca de nove quilômetros. Foram duas horas e 40 minutos de viagem, sendo que duas horas e meia apenas a partir do momento que o ônibus entrou na Dom Pedro II.

Os veículos são precários, e no fim do verão ninguém sabe se é melhor passar calor ou se molhar. "É complicado. Se a gente abre a janelinha, a chuva molha. Por outro lado, o calor é insuportável e só aumenta o cansaço", contou o auxiliar de escritório Jorge Victor Firliano Santos, 21 anos.
Linhas de ônibus que vão até Mauá, por exemplo, podem ser tomadas na Avenida Goiás, em São Caetano. Com quatro faixas de rodagem, a via permite fluidez até a divisa com Santo André, na Avenida Dom Pedro II. O calvário começa aí.

Empurrões, conversas em voz alta entre os passageiros e, fora do ônibus, buzinas e sons típicos do estresse caótico que o tráfego de Santo André provoca. Assim que os usuários percebem que o trânsito vai travar, iniciam pequenas manias para dispersar o cansaço e distrair a cabeça cansada após um dia de trabalho. Abre-se um livro, faz o piso de assento, ouve-se uma música.

Mas, depois de 30 minutos, o ônibus não conseguiu andar dois quarteirões da Dom Pedro II. "É horrível. A gente dorme, acorda e não sai do lugar quando chega em Santo André", disse a operadora de telemarketing Juliana Santos Silva, 27. Ela trabalha em São Caetano e mora na Vila Luzitano, em Mauá.

"Demora de quatro a cinco horas para chegar em casa quando começa a chover", contou a faxineira LucieneTemoteo, 34.
Na Dom Pedro II, onde os agentes de trânsito não aparecem para auxiliar os condutores, passageiros pedem para descer pelo menos duas quadras antes do ponto.

ATRASOS
Maria José Andrade, 48, se diz acostumada a chegar em casa tarde da noite nas sextas-feiras. Nesses dias ela tenta sair o mais cedo possível do trabalho. A preocupação é o marido, que já está em casa a partir das 20h. "Eu até tento chegar cedo para fazer a janta. Mas é praticamente impossível."

Mecânico troca o carro pela bicicleta

É simplesmente desesperador ficar mais de quatro horas dentro de um ônibus com o trânsito de Santo André congelado. Pior que isso, é sempre chegar atrasado no trabalho e escola. Por isso, o técnico em mecânica Mauro Rogério Rucco, 55 anos, deixou o carro na garagem há dois meses e decidiu ir até São Caetano, onde trabalha, de bicicleta.

Ele presta serviços como terceirizado de uma montadora de veículos no município. O sonho é ser efetivado como funcionário, mas precisa concluir o Ensino Médio - que teve de interromper há 30 anos para começar a trabalhar. Para isso, iniciou o curso supletivo, em uma escola no Centro de Santo André. "Mas todos os dias eu perdia a primeira aula, e assim não dá para pegar o diploma", queixou-se.

No fim do ano passado, resolveu comprar uma bicicleta. "No início, era só para lazer, mas depois fiz os cálculos e percebi que conseguia adiantar minha rotina com ela", explicou.

Ele deve bater o ponto de entrada na empresa exatamente às 7h. "Quando eu andava de ônibus, sempre chegava 15 ou 20 minutos atrasado", contou. Pedalando, além de se exercitar, Rucco conseguia um tempinho para o lanche antes do expediente. "De bicicleta, chego sempre entre 20 e 30 minutos antes de começar a trabalhar. E também não pego o estresse do trânsito pela manhã", comentou.

A mesma coisa é a chegada ao supletivo. "Comecei a chegar bem antes das aulas. Dava para descansar, tomar uma água. Pena que a Prefeitura não pensa em fazer uma ciclovia", criticou o mecânico.

Na visão dele, não falta muito para o fluxo de Santo André chegar ao estágio de estátua. "Quando eu era mais novo e já consertava carro, era muito difícil ver tantos veículos novos nas ruas. Hoje em dia, a frota aumenta e se renova todos os anos. Logo não vai dar mais para dirigir", disse.
Para quem nasceu e morou 55 anos na cidade, é fácil perceber onde está o erro. "A coisa ficou pior depois que a Prefeitura começou a reformar o viaduto (Adib Chammas)", apontou.

PERDEU AULA
Ontem, seu Mauro não foi de bicicleta para o trabalho por causa da chuva. E também não conseguiu chegar à escola. Teve de passar a viagem sentado na escadinha do ônibus, que ficou preso por mais de duas horas no trânsito da Avenida Dom Pedro II.

Cobrador até desce do ônibus para fumar

O trânsito dentro de Santo André é tão lento depois das 17h que é possível descer do carro, fumar um cigarro e voltar para a direção. Ontem, enquanto a equipe do Diário acompanhava o drama dos usuários de ônibus,foi possível flagrar todos os tipos de infração de trânsito: motos que trafegam sobre calçadas, carros que param em cruzamentos, veículos que avançam o sinal vermelho. E nada de fiscalização.

Quem fez do trânsito um meio de ganhar a vida adquiriu manhas para matar o tempo e não deixar o nervosismo subir à cabeça. O cobrador Isack Oliveira, 37 anos, tem 12 de profissão. Atualmente ele trabalha em linhas que cruzam todo o Grande ABC. A pior parte da viajem, segundo ele, é o trecho que corta Santo André.

Na Avenida Dom Pedro II, ele se permite fumar um cigarro durate o anda e para típico do fluxo daquela via. E dá tempo até de fazer uma ligação. "Fica tudo parado quando a gente chega aqui. Às vezes o motorista deixa as portas abertas, para o ar passar. Daí, saio, acendo um cigarro e relaxo. Depois, é só voltar para cobrar a passagem de quem entrou."

Quando a tempestade cai e as vias de Santo André ficam debaixo d''água (pela falta de projetos de drenagem), os motoristas de ônibus têm uma tática. "Eles desviam o caminho. Fica para trás quem está nos pontos", contou o carpinteiro Ivanildo Andrade, 30 anos, que mora em Mauá e trabalha em São Caetano.



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