Motoristas de ônibus do Recife vivem rotina de estresses

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A responsabilidade pela locomoção dos dois milhões de passageiros usuários do sistema metropolitano de ônibus está nas mãos – e pés – de apenas seis mil profissionais. E a pesada rotina de superlotação nos coletivos, trânsito travado, calor e falta de civilidade dos passageiros está cobrando um preço cada vez mais alto aos motoristas. De acordo com o Ministério Público do Trabalho em Pernambuco (MPT-PE), pouco mais da metade desses profissionais se declara mentalmente cansada ao final de um dia de trabalho. E 26% deles garantem chegar em casa com algum sintoma de fadiga.

Há onze anos na profissão, Valdomiro Cruz desenvolveu bursite e tendinite por causa da constante troca de marcha do coletivo. Ainda assim ele acredita que há algo pior na rotina como motorista: a nem sempre amistosa relação que os passageiros têm com o “comandante” do veículo. “O pessoal reclama de tudo e parece que a gente nunca tem razão. Na maioria das vezes, o erro é do passageiro”, diz, referindo-se à velha mania do usuário de querer entrar pelas portas do meio e traseira, além de querer parar fora da parada.

O quadro piora e pode ser multiplicado várias vezes quando o motorista opera numa das linhas alimentadoras, aquelas que saem dos grandes terminais de integração e passam pelas vias de maior movimento. É o caso da Barro/Macaxeira, eleita a pior do sistema por 37% dos leitores do Jornal do Commercio que participaram da enquete realizada ao longo da última terça-feira. Na sexta-feira passada, a universitária Camila Mirelle Pires, de 18 anos, faleceu após cair de um veículo dessa linha, na BR-101, bairro da Cidade Universitária, Zona Oeste do Recife. “É comum a gente rodar com tanta gente que não dá nem para enxergar o retrovisor, sem contar que muitos estudantes entram de graça pelas portas do meio e traseira”, cita um motorista, que apenas aceitou se identificar como Roberto.

O coordenador de Comunicação do Sindicato dos Rodoviários, Genildo Pereira, cita casos como o de um motorista que, no ano passado, abandonou o ônibus que guiava em plena Avenida Conde da Boa Vista, na área central da cidade, e saiu andando. “A carga foi tanta que ele não suportou. Tivemos que acompanhá-lo de perto. E existem vários casos que ainda envolvem depressão. A rotina é muito cruel para o motorista”, diz.

AÇÕES - A diretora de Relações Institucionais do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros (Urbana), Amélia Bezerra Leite, afirma que as operadoras estão investindo em formas para minimizar o calvário dos profissionais. “Todas têm grupos com psicólogos, advogados, terapeutas, tudo para que eles saibam que têm apoio e que são acompanhandos de perto”, diz. Ela afirma que o público que anda nos coletivos tem papel importante no processo. “É preciso que o cliente tenha consciência de que não pode hostilizar o motorista nem entrar por portas que não sejam a da frente, além de respeitar os assentos.” 

Por Felipe Vieira

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